Viagens de fantasmas vendem uma história, mas só a história real as faz valer a pena
O turismo paranormal está em alta porque as viagens pedem um enredo. As que valem seu dinheiro se apoiam no passado genuíno de um lugar, não num hotel assombrado com bom assessor de imprensa.
Imagem gerada por IA
Você pagaria mais para dormir num quarto onde nunca aconteceu nada, desde que o folheto diga que ele é assombrado? Pelo visto, muitos viajantes pagariam, e é justamente aí que a tendência do «turismo paranormal» fica interessante, e um pouco arriscada.
Os números vêm da França, onde o linternaute informa sobre um estudo do Booking.com: metade dos viajantes franceses quer uma dose de adrenalina nas férias, número que sobe para 82 % entre a Geração Z. Já 9 % viajaram para viver uma experiência paranormal ou ver um fantasma, e outros 17 % estão pensando nisso. Hotéis assombrados, passeios noturnos por cemitérios, escapadas góticas nas pegadas de Drácula ou Frankenstein: esse é o cardápio.
O fantasma é o gancho, a história é o produto
Por que agora? Achamos que a resposta tem menos a ver com fantasmas do que com narrativa. Uma viagem a uma cidade bonita é um bom fim de semana. Uma viagem a uma cidade com lenda é uma história que você pode contar depois. O turismo paranormal dá ao viajante um enredo antes mesmo de ele fazer a mala, e isso pesa num mundo em que todas as praias e centros históricos já foram fotografados milhões de vezes.
A mesma reportagem do linternaute sugere algo mais profundo do que diversão. Segundo ela, 36 % dos franceses se interessam por uma experiência na esperança de se comunicar com um ente querido falecido, embora só 11 % dos viajantes tentassem de fato uma sessão espírita. Seja qual for sua crença sobre os espíritos, essa diferença mostra que o desejo é em parte emocional. As pessoas não buscam apenas um susto; algumas buscam sentido. Tratar isso como mera oportunidade de parque temático nos parece uma leitura errada do cliente.
Um truque é um caso de uma noite; a história é um relacionamento
Nossa aposta: as viagens de fantasmas que duram são as construídas sobre algo que realmente aconteceu. Veja o que os melhores exemplos do levantamento do linternaute têm em comum. A festa celta de Samain, que o linternaute apresenta como a raiz antiga do Halloween, dá uma razão legítima de existir ao festival irlandês Spirits of Meath, perto de Athboy, com procissões à luz de tochas e exibições de filmes de terror ao ar livre sobre uma tradição real. Na Áustria, a «Seleenwoche», a Semana de Finados que vai de 30 de outubro a 8 de novembro, homenageia os mortos. Em Otranto, na Apúlia, a catedral guarda mais de 800 crânios de pessoas decapitadas durante uma invasão turca no século XV, e as famílias visitam os cemitérios na festa religiosa de Tutti i Santi.
Nada disso precisa de máquina de fumaça. Precisa de um bom guia e de algum respeito. Já um hotel que apenas acrescenta teias de aranha e uma etiqueta de «assombrado» não oferece nada quando a novidade passa, e nada que valha uma volta. Até os rankings apontam nessa direção: uma lista do nomadlawyer.org põe a Transilvânia no topo de 47 destinos assustadores para 2026, à frente de Salem e Derry, e a descreve como uma virada para o folclore gótico e as viagens imersivas de outono. Folclore, ou seja, e não decoração. (Rankings assim são opiniões editoriais, e não tomaríamos nenhum como dogma.)
Derry lembra que a fórmula pode ganhar escala sem perder a alma. O linternaute observa que o USA Today a elegeu o melhor destino de Halloween do mundo e que ela sedia o que se descreve como o maior carnaval de rua de Halloween da Europa, às margens dos rios Foyle e Morne. Se isso ainda é «paranormal» é discutível, mas está enraizado numa cidade real que celebra uma tradição real.
Como fazer direito e o que conferir antes
Nosso conselho é simples. Escolha primeiro o lugar e depois o fantasma. Se você não consegue descobrir por que um local seria assombrado, quem viveu ali e o que aconteceu, desconfie. Na França, o linternaute cita a floresta de Brocéliande por seus fantasmas lendários e o Château de Puymartin, no Périgord, que abrigaria o fantasma de Thérèse Saint-Clar. Na nossa visão, um castelo com um fantasma de nome conhecido e uma história rastreável é uma aposta muito melhor do que um pacote genérico de «noite assustadora».
Reserve com antecedência também: o linternaute alerta que as noites de 31 de outubro lotam rápido. E fique de olho nas notícias. Este Halloween cai num sábado em meio a protestos na França, e a BFMTV informa que toques de recolher foram restabelecidos para a noite de Halloween em alguns locais, incluindo Nice e partes de Paris como Les Halles e République. Se você vai viajar neste fim de semana, confira as regras locais antes de planejar um passeio noturno.
Nosso veredicto
O turismo paranormal não é modinha para zombar; é uma reembalagem inteligente de algo que os viajantes sempre amaram: lugares antigos com histórias. O risco é o setor confundir a embalagem com o presente. Vá ao cemitério, ao castelo, ao festival com séculos de tradição. Pule o quarto cuja única credencial é uma placa na porta. Se um fantasma aparecer, considere um bônus. Se a história for boa, você nem vai sentir falta dele.
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