Selo da UNESCO não salvará Tatshenshini: a natureza selvagem precisa de vigias
Um plano privado de minerar cobre e cobalto em um parque Patrimônio Mundial mostra que uma placa protege pouco sozinha e que os viajantes que amam lugares remotos têm um papel.
Foto: Random89 / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)
De que adianta um título de Patrimônio Mundial se uma mineradora ainda pode desenhar um mapa por cima? Essa é a pergunta incômoda que paira sobre o Parque Tatshenshini-Alsek, no noroeste da Colúmbia Britânica, um dos cantos mais selvagens da América do Norte.
O The Tyee informa que uma empresa privada avança com planos para minerar cobre e cobalto dentro do parque, que faz parte de um sítio transfronteiriço Patrimônio Mundial da UNESCO. A documentação pública ainda é escassa: não temos os planos da empresa, um cronograma nem qualquer decisão sobre licenças, e nada disso deve ser suposto. Mas a manchete, por si só, já basta para começar uma discussão.
O selo é uma promessa, não uma cerca
A inscrição na UNESCO abrange uma série de parques ao longo da fronteira entre Canadá e Estados Unidos, que abrigam o maior campo de gelo não polar do mundo e algumas das geleiras mais longas do planeta. É um argumento a favor da proteção tão forte quanto qualquer lugar da Terra pode apresentar. Ainda assim, em nossa opinião, a inscrição é uma declaração moral, não uma barreira legal. O que de fato mantém uma sonda de perfuração longe é provavelmente uma combinação de leis dos parques, vontade política e atenção do público.
Não achamos que isso torne a UNESCO inútil. Uma inscrição aumenta o custo de reputação das más decisões e dá aos conservacionistas um palco global. Mas ela não consegue deter ninguém sozinha, e os viajantes que a tratam como uma garantia estão se enganando. A placa é onde a proteção começa, não onde termina.
Este parque existe porque as pessoas fizeram barulho
A história prova isso melhor do que qualquer opinião. O parque foi criado em 1993 depois de uma campanha intensa de grupos conservacionistas canadenses e americanos para barrar a exploração e o desenvolvimento da mineração. A disputa girou em torno de Windy Craggy, um pico para o qual se havia proposto uma enorme mina de cobre a céu aberto, com uma estrada de acesso ao longo do rio Tatshenshini. A empresa por trás do projeto, a Geddes Resources, recebeu uma indenização de 29 milhões de dólares, e a província gastou quase 150 milhões para construir uma mina em outro lugar, segundo o Frontier Centre, que classifica todo o episódio como um erro.
Essa visão merece ser ouvida, porque é o argumento em que a próxima rodada provavelmente vai se apoiar. Cobre e cobalto são valiosos, e o argumento econômico será defendido em voz alta. Nossa resposta é simples: alguns lugares valem mais intactos. Empresas de rafting percorrem esses rios desde a década de 1970, e uma estrada e uma mina a céu aberto como as que foram propostas trocariam algo insubstituível por algo que existe em muitos outros lugares.
Quando o parque foi criado, em 1993, a ideia era que fosse administrado em conjunto pela Primeira Nação Champagne-Aishihik e pelo governo da Colúmbia Britânica, um detalhe que importa. O que quer que aconteça a seguir deve ser decidido com as pessoas a quem esta terra pertenceu, não à revelia delas.
Os viajantes são o público que falta à natureza remota
A natureza remota tem uma fraqueza silenciosa: quase ninguém a vê, então quase ninguém a defende. É aí que entram os visitantes. Remar, sobrevoar ou simplesmente se informar sobre um lugar como este o transforma de abstração em uma comunidade de interessados. Acreditamos que quem toma as decisões percebe quando uma paisagem tem gente que se importa com ela, inclusive gente que gasta dinheiro para chegar lá.
Por isso, nossa recomendação tem três partes. Acompanhe a história conforme ela evolui e espere os detalhes reais da proposta antes de julgar pontos específicos. Apoie as vozes conservacionistas e lideradas por povos indígenas que já defenderam a região. E, se você sonha com terras de geleiras, coloque este canto do mapa na sua lista e planeje uma viagem com operadores que o respeitem. Visitas responsáveis são, em nossa opinião, o argumento mais forte de que um lugar selvagem vale mais de pé do que escavado.
Vá conhecer a terra das geleiras e continue de olho
Um selo da UNESCO é um ótimo motivo para visitar e um péssimo motivo para relaxar. Tatshenshini-Alsek foi salvo uma vez por uma coalizão barulhenta e teimosa, e duvidamos de que seja salvo uma segunda vez por papelada. Se esta proposta for tão séria quanto o The Tyee sugere, a resposta certa não é um dia de indignação. É permanecer atento pelo tempo que for preciso.
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