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Redação Tripsfera
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Os lugares de memória da escravidão no Brasil merecem visitantes, não só placas

A UNESCO incluiu o Cais do Valongo, no Rio, uma sociedade de Salvador e a Serra da Barriga na rede de memória da escravidão. Só importa se vierem viajantes e o Brasil financiar uma narrativa honesta.

Publicado
30 de outubro de 2026
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Foto: Agência Brasil Fotografias / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Uma placa pode mudar a maneira como um país lembra? Quase nunca. Um visitante no lugar certo, com o guia certo e tempo para ouvir, às vezes consegue. Esse é o verdadeiro teste da mais recente decisão da UNESCO no Brasil.

Segundo a Agência Brasil, três lugares brasileiros foram inscritos na Rede de Sítios de História e Memória Relacionados à Escravidão e ao Tráfico de Pessoas Escravizadas da UNESCO: o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro; a Sociedade Protetora dos Desvalidos, em Salvador; e a Serra da Barriga, em Alagoas, onde fica o Parque Memorial Quilombo dos Palmares. A rede foi criada em 2024, dentro do programa Rota do Escravo da UNESCO. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil apresentou os três. O Valongo também é Patrimônio Mundial desde 2017.

A rede é um começo, mas são os visitantes que lhe dão força

Vamos ser honestos sobre o que uma inscrição como essa faz. Ela traz visibilidade, contatos internacionais e, nas palavras da representante da UNESCO no Brasil, a chance de os gestores dos sítios compartilharem boas práticas. Ela não contrata guias, não conserta uma parede nem monta uma boa exposição. Essa mesma representante, Marlova Jovchelovitch Noleto, falou em transformar os lugares de memória em espaços vivos de conhecimento, diálogo intercultural e direitos humanos. Concordamos com o objetivo. Espaços vivos precisam de gente passando por eles.

É aí que entram os viajantes. A imagem de cartão-postal do Brasil são praias, carnaval e floresta. Esses três lugares contam uma história mais dura e, sem dúvida, mais importante sobre como o país se formou. Uma viagem ao Rio que inclua a zona portuária, ou uma estadia em Salvador que reserve espaço para o Centro Histórico, fica melhor por isso. E também mais honesta.

Três lugares, três histórias diferentes, e é esse o ponto

O historiador Ivanir dos Santos, citado na reportagem, descreve o trio como três dimensões de uma mesma história: a violência do comércio transatlântico no Valongo, a resistência e a busca por autonomia na Serra da Barriga, e a organização coletiva e a solidariedade na Sociedade Protetora dos Desvalidos.

Para nós, essa mistura é a parte mais inteligente da seleção. O turismo de memória muitas vezes fica preso só ao sofrimento, e o visitante vai embora triste, mas pouco mais sábio. A sociedade de Salvador, fundada em 1832 por Manoel Victor Serra e outros homens negros livres e descrita como a primeira instituição civil negra do Brasil em funcionamento contínuo, mostra pessoas construindo algo juntas sob condições restritivas. É outro tipo de visita e, a nosso ver, um contrapeso necessário. De acordo com o Correio, a sede fica no Largo do Cruzeiro de São Francisco, 17, no centro histórico de Salvador, e o veículo informa um telefone e um e-mail para contato. Não presumiríamos nenhum horário de visita, então vale entrar em contato antes de aparecer por lá.

O Valongo tem outro peso. Fica na região portuária do Rio e foi destacado na candidatura por preservar vestígios de um dos principais pontos de desembarque de africanos escravizados nas Américas. Estar num lugar assim sem contexto quase não significa nada. Com um bom intérprete, pode ser inesquecível.

O Brasil precisa pagar pela história, não só pelo reconhecimento

Agora a parte incômoda. Dos Santos, na mesma reportagem, defende que o reconhecimento institucional venha acompanhado de políticas de preservação, educação antirracista e participação das comunidades negras na gestão desses espaços. Nós iríamos além e diríamos com todas as letras: se o Estado quer o dividendo do turismo, precisa financiar a interpretação. Isso significa guias locais capacitados, explicações claras e multilíngues, informação acessível e vozes da comunidade no conteúdo.

Sem isso, o risco é conhecido. O lugar vira parada para foto num passeio pela cidade, e a história é achatada para caber num cronograma. O contrário também é possível. Bem feitos, com as comunidades no comando de como sua história é contada, esses lugares podem se tornar algumas das paradas mais significativas do país.

Nosso veredito

Se você está planejando uma viagem ao Brasil, coloque pelo menos um desses lugares no roteiro e dê a ele tempo de verdade, não vinte minutos entre o almoço e a praia. Contrate um guia local sempre que possível e pergunte quem administra o lugar e quem conta sua história. Os visitantes não conseguem resolver a falta de recursos, mas podem criar demanda por uma boa interpretação.

Quanto ao Brasil, a UNESCO fez a sua parte. Agora é preciso vir o trabalho duro e pouco glamouroso de montar equipes, financiar e ouvir as comunidades, ou isso vai continuar sendo só uma bela frase em um comunicado de imprensa.

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