O desabamento fatal na Capadócia mostra que os ícones precisam de limites
Uma chaminé de fada desabou em Göreme e matou duas pessoas. A tragédia lembra que marcos frágeis exigem monitoramento, fechamentos e franqueza sobre o risco, não só acesso bom para fotos.
Foto: Brocken Inaglory / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
Uma paisagem pode ser bonita demais para ficar aberta sem questionamento? O que aconteceu na quinta-feira na Capadócia obriga a pensar nisso, por mais incômodo que seja. O cartão-postal não é o lugar, e o lugar é feito de rocha macia e milenar que não se importa com quantas pessoas querem uma foto dela.
O que aconteceu, até onde sabemos
Segundo o Le Figaro, uma coluna de rocha desabou em 29 de outubro em um ponto turístico de Göreme, no centro da Turquia. O governador de Nevsehir, Huseyin Kok, disse que os corpos de duas pessoas foram encontrados. O ministro da Justiça, Akin Gürlek, afirmou que pelo menos cinco ficaram feridas. O governador atribuiu o incidente a uma queda de rochas causada por um deslizamento de terra, e outros veículos, entre eles a RFI, apontam chuva forte como o gatilho. A área foi fechada ao público, as buscas e o resgate continuavam, e o Ministério Público de Nevsehir abriu uma investigação.
Os detalhes ainda mudam, e as reportagens divergem um pouco quanto ao número de feridos. Não vamos especular sobre quem é o culpado. Mas a questão mais ampla já está posta, e é legítima.
Um ícone do Patrimônio Mundial também é uma estrutura frágil
A Capadócia está na lista da UNESCO desde 1985, e suas chaminés de fada nasceram de uma atividade vulcânica muito antiga e da erosão. Essa é a magia. É também o aviso na embalagem: essas formações são feitas pela erosão, e a erosão não para quando chegam os ônibus de turismo.
As autoridades sabem disso. O Le Figaro observa que as obras de restauração foram retomadas há dois anos para proteger chaminés ameaçadas por séculos de erosão natural e décadas de visitação muito intensa. Em setembro, o chefe do órgão gestor do local, Aydin Cem Aslanbay, disse ao Daily Sabah que a Capadócia é muito importante, mas tem formações muito frágeis. É uma declaração honesta. O incômodo está no que decorre dela: se os gestores descrevem a rocha como frágil, os visitantes devem ser informados disso em termos claros, e não apenas por uma versão de loja de souvenirs da paisagem.
Na nossa opinião, é aí que os destinos costumam falhar. O marketing vende permanência, o mesmo vale dourado ano após ano. A geologia não faz essa promessa, sobretudo depois de mau tempo.
Dinheiro não é argumento contra fechar áreas
O mesmo dirigente diz que o local recebe 4,5 milhões de visitantes por ano e gera 2,5 bilhões de dólares em receita. Esses números são o motivo de ser difícil adotar uma postura cautelosa, e também o motivo de ela ser necessária. Um destino que fatura tanto pode bancar um monitoramento sério, mas não pode bancar a fama de deixar pessoas debaixo de rocha instável.
Como seriam limites sensatos? Esta é a nossa opinião, não uma descrição do que a Turquia faz ou deixa de fazer. As zonas próximas a formações vulneráveis deveriam fechar automaticamente após chuvas fortes, e não depois de um acidente. A estabilidade deveria ser avaliada regularmente por especialistas, com resultados que definam o acesso. E a sinalização deveria dizer claramente quais áreas têm risco real, em vez de presumir que uma bela vista fala por si.
Os fechamentos irritam visitantes e operadoras de turismo, e entendemos o porquê. Mas um pináculo isolado por alguns dias é um transtorno menor. A alternativa é o que aconteceu na quinta-feira.
Ainda vale a pena ir?
Provavelmente sim, mas vá como um visitante atento. Os santuários rupestres, as aldeias trogloditas e as cidades subterrâneas da Capadócia continuam extraordinários. Verifique as condições e eventuais fechamentos antes de viajar, siga as instruções da equipe sem discutir e encare as barreiras como informação, não como obstáculo para conseguir um ângulo melhor. Depois da chuva, redobre a cautela com qualquer coisa que pareça instável.
A lição não é que a natureza seja perigosa. É que os ícones naturais merecem a mesma humildade de engenharia que concedemos a catedrais e pontes. Nosso veredicto: manter as portas abertas, mas dar à rocha o direito de dizer não. Qualquer coisa menos que isso transforma uma paisagem do Patrimônio Mundial em uma aposta.
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