O charme rústico de Jericoacoara é real, e 1,3 milhão de visitantes é um alerta
O grande número de visitantes mostra que o charme rústico de Jericoacoara é seu ativo mais frágil, e controlar o crescimento agora importa mais do que comemorá-lo.
Foto: Antônio Marcos Capobianco / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
O que acontece com uma "vila secreta" quando 1,3 milhão de pessoas conhecem o segredo? Jericoacoara, no Ceará, está descobrindo. Sua arquitetura rústica, suas praias e suas dunas migratórias, alcançadas por trilhas sem pavimentação, são exatamente a imagem que a vende, e exatamente o que está em risco.
Os números estão aí. Segundo o Trends CE, o Parque Nacional de Jericoacoara recebeu 1,3 milhão de turistas em 2025. No ano anterior, o município de Jijoca de Jericoacoara comemorou que o parque teve mais de 1,2 milhão de visitas, tornando-se o terceiro parque nacional mais visitado do Brasil, segundo o ICMBio. O governo local tratou isso como uma conquista histórica.
Números grandes não são vitória quando a vila não pode crescer
Nós não abriríamos o champanhe. A vila fica cercada pelo parque nacional, o que, como observa o site Entre Parques, significa que ela não pode se expandir. Uma área fixa com cada vez mais visitantes é aritmética simples: algo cede. Normalmente, justamente aquilo que as pessoas vieram buscar.
Um estudo acadêmico traz a evidência mais clara. Um artigo da revista Mercator, de D. P. de Paula, estima a capacidade de carga da vila com base nas condições de 2019. A conclusão é direta: a visitação atual excede a capacidade real e efetiva, mesmo num cenário hipotético com redução de 20% no fluxo de turistas. Esse último detalhe importa. Cortar um quinto não basta, segundo o próprio modelo do autor. Métodos de capacidade de carga são estimativas e podem ser debatidos, mas quando até o cenário otimista falha, a direção é difícil de contestar.
O charme é físico, e o que é físico se desgasta
O charme rústico parece uma escolha de design, mas na verdade é uma condição frágil. O estudo cita a poluição do lençol freático, o avanço das dunas e mudanças no caráter físico e humano da vila como problemas frequentemente causados por uma demanda além da capacidade física. Outro artigo aponta fluxos desordenados de pessoas e veículos dentro do parque, que atribui à falta de monitoramento e controle das visitas.
A natureza já deu um sinal. Segundo o Entre Parques, o tráfego de carros e buggies ao longo da orla afugentou as tartarugas-marinhas, que reapareceram em 2020 e 2021, quando a visitação foi restringida durante a pandemia. Na nossa visão, esse é o argumento mais persuasivo a favor de limites. As tartarugas voltaram quando as deixamos em paz. Jericoacoara remete à toca da tartaruga-marinha, de acordo com a mesma fonte.
Isso também destoa da afirmação do município de que o destino promove o turismo sustentável. Talvez essa seja a intenção. Mas intenção não é um teto.
Limitar, cobrar e investir o dinheiro onde está o dano
Então, o que deveria acontecer? Nossa recomendação tem três partes.
Primeiro, definir um teto de visitantes com base em um estudo de capacidade de carga adequado, atualizado além dos dados de 2019, e fazê-lo valer. Os pesquisadores concluem que a vila precisa de coordenação entre governo, comunidade local e setor turístico. Concordamos, e acrescentamos que alguém precisa assumir a caneta e fixar um número único.
Segundo, seguir o dinheiro. O Entre Parques informa que a entrada na vila é controlada e cobrada, mas que nem uma pequena parte chega ao ICMBio para a conservação. Se isso ainda vale depois desse relatório de 2022, é uma falha de projeto, não um detalhe. As taxas deveriam financiar o órgão que recupera trilhas e cuida da conservação. Um consórcio concessionário, a Urbia Cataratas Jericoacoara, se apresenta como operadora do parque e diz que sua missão é transformá-lo em modelo de turismo sustentável. É uma promessa, e vamos julgá-la pelos resultados, não pelos folhetos.
Terceiro, mudar a experiência. Caminhar pela praia na maré baixa, subir ao farol da Serrote ou pedalar pelas dunas mostra aos viajantes coisas que um veículo deixa passar, como observa o Entre Parques sobre os passeios motorizados. Acreditamos que isso também deixa uma pegada mais leve. Mais devagar, em grupos menores e com guia não é sacrifício. É uma viagem melhor.
O que os viajantes devem fazer
Vá, mas vá com consciência. Escolha períodos de menor movimento em vez dos picos, evite a corrida de buggies pela orla, confira as marés e trate as dunas como o monumento que são. A "vila secreta" deixou de ser secreta há anos. Continuar sendo especial depende de o Ceará decidir que 1,3 milhão é um teto a respeitar, e não uma marca a superar.
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